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Almirante Negro: reconhecimento como herói é adiado

A pedido da Marinha, Senado adia a inscrição do Almirante Negro, João Cândido, no Livro dos Heróis da Pátria. Ele liderou a Revolta da Chibata, em 1910

13 de outubro de 2021


O Almirante Negro, João Cândido, liderou a Revolta da Chibata, em 1910 (foto: reprodução da Internet)


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O Senado adiou a votação que iria inscrever o nome de João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, no Livro dos Heróis da Pátria. O adiamento foi pedido pelo senador Izalci Lucas (PSDB/DF), que disse estar atendendo a um pedido da Marinha. A votação deve ser realizada na próxima reunião da Comissão de Educação.

João Cândido liderou, em 1910, a Revolta da Chibata, na Baía de Guanabara, em que marinheiros se rebelaram contra os castigos físicos então aplicados pela Marinha. A imprensa da época, reconhecendo seu papel de líder, o chamou de Almirante Negro. Em 1973, ele foi homenageado no samba “Mestre-Sala dos Mares”, de Aldir Blanc e João Bosco.

Um dos trechos desse samba foi lembrado no Senado pelo senador Paulo Paim (PT/RS). “Glória, meus amigos. Glória a todas as lutas inglórias, que através da nossa história, não esquecemos jamais. Salve o navegante negro, que tem por monumento as pedras pisadas do cais”, disse Paim, que reconhece em João Cândido um dos heróis na luta contra o racismo e a desigualdade na sociedade brasileira.

O senador Izalci Lucas afirmou que a Marinha quer enviar novos documentos para a análise do Senado. “Eu sou favorável que a gente reponha, reconheça, recupere o máximo possível de tudo aquilo que foi cometido de errado no passado. Então eu vou pedir a compreensão de V. Exª. Só para que eu possa ouvir as Forças Armadas, a Marinha brasileira, que me pediu, mas com o compromisso de na primeira reunião trazer uma posição definitiva. E a Marinha terá de me convencer sobre isso”, disse Lucas.

Em março passado, após 51 anos de sua morte, João Cândido foi homenageado pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), com uma placa no muro da sua antiga residência, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Na casa, vive atualmente Adalberto Cândido, o Sr. Candinho, filho de João Cândido.

Em 1910, embora proibido por decreto, o chicote continuava sendo usado para manter a disciplina na Marinha, numa clara demonstração de quanto estavam presentes a discriminação racial e social na jovem República brasileira.

Na época, cerca de 90% dos praças eram negros ou mulatos, e João Cândido, um dos marinheiros mais experientes, foi escolhido como um dos líderes que tentaram negociar pacificamente o fim dos castigos corporais com o ministro da Marinha e com o Governo Federal.

Almirante Negro sendo preso
João Cândido preso após a Revolta da Chibata (foto: Biblioteca Nacional)

Almirante Negro lutou contra a discriminação na Marinha

O movimento não foi atendido e, após uma revolta que envolveu mais de 2.000 marinheiros na Baía de Guanabara, João Cândido assumiu o controle dos principais navios de guerra, apontando os canhões para a então capital do Brasil.

“Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira“, escreveram os rebeldes no manifesto que encaminharam ao presidente Hermes da Fonseca, que, para terminar a revolta, comprometeu-se em acabar com o uso da chibata e em anistiar os revoltosos.

Os rebeldes depuseram as armas, os navios foram devolvidos, mas o Governo não honrou seu compromisso.

João Cândido acabou preso e expulso da Marinha, assim como centenas de outros marinheiros. Para sobreviver, o Almirante Negro trabalhou como estivador e no mercado de peixes que havia na Praça XV, no centro do Rio. Ele viveu seus últimos anos em São João de Meriti.


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