Sustentabilidade

Abram alas para o mico-leão-dourado

Cristina Serra conta porque o viaduto vegetado da Arteris em Silva Jardim é um capítulo de sucesso da luta pela preservação do mico-leão-dourado

24 de agosto de 2020
O viaduto vegetado é alento na proteção aos mico-leões dourados (Arteris)

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Cristina Serra

Cristina Serra

cristinaserra.org

O Brasil acaba de ganhar uma obra inovadora para a conservação da biodiversidade. Foi construído na rodovia BR-101, na altura de Silva Jardim, interior do Rio de Janeiro, o primeiro viaduto vegetado para passagem de fauna. A obra foi uma exigência do processo de licenciamento ambiental ao qual a empresa concessionária (Arteris Fluminense) teve que se submeter para fazer a duplicação da estrada, como manda a legislação.

A duplicação criou o que os biólogos chamam de “efeito-barreira”. Fica muito mais difícil para os bichos conseguirem atravessar a estrada. E por que eles precisam fazer essa travessia? Porque a Mata Atlântica que restou no interior fluminense é fragmentada em pequenas “ilhas” de floresta dos dois lados da estrada. Os animais precisam se movimentar entre as “ilhas”, buscando alimento e parceiros para reprodução. 

Um destes animais é o mico-leão-dourado, animal exclusivo das matas do interior do Rio. Nos anos 1970, este belo primata quase foi completamente extinto. O primatólogo Adelmar Coimbra (1924-2016) estimou, na época, que existiam apenas cerca de 200 micos-leões-dourados na natureza. Os estudos de Coimbra foram o ponto de partida para um esforço mundial de conservação que perdura até hoje. 

 

Zoo de Washington ‘treinou’ o mico-leão-dourado

 

Zoológicos do mundo inteiro, liderados pelo National Zoo de Washington, nos Estados Unidos, participaram de uma experiência muito ousada na época. Animais de cativeiro foram “treinados” a viver o mais próximo possível das condições de um ambiente natural até que fossem considerados preparados para a reintrodução nos fragmentos de Mata Atlântica. Os grupos – ou famílias – de micos foram treinados em áreas ao ar livre no zoo de Washington, com colares de rastreamento, para que não se perdessem ao se verem livres dos recintos em que viviam confinados até então.

Eles começaram a ser trazidos de avião para o Brasil nos anos 1980. Alguns morreram ao serem reintroduzidos, vítimas de predadores ou substâncias venenosas da floresta, que tentaram comer. Os pesquisadores fizeram ajustes no treinamento até que a reintrodução começou a dar frutos. Com o passar do tempo, os micos oriundos dos zoológicos se adaptaram bem, começaram a se reproduzir e ajudaram a recuperar a população silvestre da espécie. Em 2014, a população total do primata chegou a 3.700 animais, conforme revelou o censo feito pela Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD), ong que coordena o trabalho de conservação. Mas, com a febre amarela, a população foi reduzida a 2.500 animais. 

 

Muito a fazer para salvar o mico-leão-dourado

 

Com todos esses esforços, o mico saiu da categoria de “criticamente ameaçado” de extinção para “ameaçado”. Portanto, ainda há muito a fazer para que os estudiosos considerem a espécie salva da extinção. O viaduto vegetado é feito sob medida para o mico porque vai ligar duas áreas muito importantes. De um lado da estrada, a Reserva Biológica de Poço das Antas e do outro a sede da AMLD, uma antiga fazenda com mata nativa. Em ambas, existem grupos de micos que poderão interagir e manter o fluxo genético da espécie. O plantio sobre o viaduto vai requerer atenção especial. Um dos cuidados é não plantar árvores que fiquem muito pesadas ou que produzam frutos que possam cair sobre a estrada. Será um trabalho muito específico de engenharia florestal.

Além do viaduto, a concessionária também construiu túneis sob a rodovia e passagens chamadas de “copa a copa”, espécie de ponte estreita por cima da estrada, para outras espécies. Mas, é garantido que os animais vão usar as passagens? Em vários trechos da rodovia, a concessionária instalou cercas de arame para que os bichos sejam forçados a procurar as passagens. Além do mico, serão beneficiados animais como a preguiça-de-coleira, tamanduá-mirim, onça parda, capivaras, tatus e muitos outros, vítimas de atropelamentos.

 


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Apesar de ser uma das exigências do ICMBio no licenciamento, a empresa concluiu a duplicação da estrada em Silva Jardim sem construir as passagens. A AMLD fez campanhas e abaixo-assinados e recorreu ao Ministério Público do Rio de Janeiro, que entrou com uma ação civil pública na Justiça. A ação foi aceita e a Justiça determinou que a empresa apresentasse um cronograma para a execução das estruturas.

Por que conto todos esses detalhes? Para mostrar que o esforço de conservação de uma espécie é um trabalho persistente e de longo prazo, que exige a participação e o compromisso de muita gente. Exatamente por isso, o mico-leão-dourado tornou-se um símbolo da defesa do meio ambiente no Brasil e no mundo. Eu conto um pouco da história desse primata, desde que os primeiros europeus tiveram contato com ele, logo após o descobrimento, no meu livro “A Mata Atlântica e o mico-leão-dourado – uma história de conservação”. No blog cristinaserra.org, você encontra o link para conhecer o livro, que tem fotos feitas pelo fotógrafo naturalista Haroldo Palo Jr. 

 


  • Texto gentilmente cedido pelo blog cristinaserra.org