A vida vai melhorar: Vila Isabel canta Martinho da Vila | Diário do Porto


Carnaval 2022

A vida vai melhorar: Vila Isabel canta Martinho da Vila

O cantor e compositor Martinho da Vila é o tema da Vila Isabel no Carnaval deste ano com o enredo “Canta, canta minha gente! A Vila é de Martinho!”

12 de abril de 2022

Ensaio técnico da Unidos de Vila Isabem em 2022 (Rafael Catarcione/Riotur)

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É tipo um encontro da fome com a vontade de comer, e tem tudo para saciar a sede de quem gosta de samba e da Vila Isabel. Martinho da Vila, ele mesmo, será o grande homenageado pela escola à qual dedicou a vida, no carnaval de 2022. 

A vida do cantor e compositor será contada no enredo “Canta, canta minha gente! A Vila é de Martinho!”. E como será, para o próprio, cantar um samba sobre si mesmo? Martinho diz que vai “chegar lá como um componente comum e pensar que esse cara homenageado é maneiro”. Então vai cantar o samba e “desfilar com uma gelada na mão”. É Martinho, isso aí. 

Vila Isabel de Noel

A Unidos de Vila Isabel é uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio. Foi fundada por Antônio Fernandes da Silveira, conhecido no bairro como Seu China por ter “olhos puxados”, apesar de não ter ascendência oriental. Ex-morador do morro do Salgueiro, Seu China se mudou para o Morro dos Macacos em 1945. Entrando em contato com o carnaval de Vila Isabel, o sambista acreditava que o bairro de Noel Rosa merecia ter uma escola de samba.

Noel Rosa é o maior mito do bairro da Vila Isabel e um dos maiores nomes do samba carioca. Sua obra foi fundamental para legitimar samba de morro e na classe média, graças à presença contundente no rádio, principal meio de comunicação na época. Noel nasceu em 1910 e morreu aos 26 anos por decorrência da tuberculose, deixando um mundo de canções para a Música Popular Brasileira.

No domingo de carnaval de 1946, Seu China conversava com amigos na Praça Barão de Drummond, enquanto desfilava por ali o Bloco Acadêmicos da Vila, agremiação do Morro do Pau da Bandeira. Chamou a atenção do grupo de amigos a maneira organizada do bloco de desfilar. A Unidos de Vila Isabel foi fundada em 4 de abril de 1946 no quintal da casa de Seu China, na subida do Morro dos Macacos.

E chega Martinho

A entrada de Martinho da Vila na Unidos de Vila Isabel aconteceu em 1965. Ele fazia parte da escola de samba Aprendizes da Boca do Mato e já estava partindo para o Império Serrano quando surgiu o convite para integrar a ala de compositores da Vila Isabel. Na nova escola, Martinho reestruturou a forma de compor sambas de enredo, com a introdução de letras e melodias mais suaves, emplacando quatro sambas consecutivamente.

No carnaval de 1967, Martinho da Vila compôs Carnaval de Ilusões; em 1968, Quatro Séculos de Modas e Costumes; em 1969, Iaiá do Cais Dourado e, em 1970, Glórias Gaúchas. No grupo especial, a Vila Isabel conquistou seu primeiro campeonato apenas em 1988, desfile do samba-enredo “Kizomba, a festa da raça”.

Cena do desfile de Kizomba em 1988
O lendário “Kizomba, a festa da raça”, de 1988 (Sebastião Marinho, Wikimedia Commons)

Todo mundo já cantou pelo menos um trecho do samba campeão de 88: “Valeu, Zumbi / O grito forte dos Palmares / Que correu terra, céus e mares / Influenciando a abolição / Zumbi, valeu / Hoje a Vila é Kizomba / É batuque, canto e dança / Jongo e Maracatu / Vem, menininha / Pra dançar o Caxambu” Difícil é parar de cantar “Vem a Lua de Luanda / Para iluminar a rua / Nossa sede e nossa sede / De que o aparthaid se destrua”. 

O desfile da Vila Isabel em 1988 fez história na Passarela do Samba por abusar de materiais alternativos, como a palha e sisal, e pela garra dos componentes da escola. Para muitos que seguem os desfiles, este é considerado um dos maiores de todos os tempos.

Naquele ano, várias escolas inspiraram-se no centenário da Abolição da Escravatura. A Vila Isabel de Kizomba recebeu 224 pontos dos jurados. A Mangueira, com 223, ficou em segundo lugar com o também memorável “100 anos de liberdade, realidade ou ilusão?”.

8º lugar em 2020 

Em 2019, a escola ficou em 3º lugar do Grupo Especial, com o enredo “Em nome do Pai, do Filho e dos Santos, a Vila canta a cidade de Pedro“, sobre a cidade de Petrópolis. Já em 2020, a agremiação apresentou o enredo “Gigante pela própria natureza: Jaçanã e um índio chamado Brasil”, contando a história de Brasília por meio de uma lenda indígena. Ficou em 8º lugar. 

Aprenda o samba deste ano. Para cantar junto, ouça aqui.

Canta, canta minha gente! A Vila é de Martinho!

Compositores: Evandro Bocão, André Diniz, Dudu Nobre, Professor Wladimir, Marcelo Valença, Leno Dias e Mauro Speranza.

Ferreira, chega aí

Abre logo uma gelada, vem curtir

A Avenida engalanada

Nossa gente emocionada vai reluzir

Os sonhos de Iaiá

Suas glórias e cirandas resgatar

Não acaba quarta-feira a saideira

Nem o meu laiaraiá

Raízes da roça para os pretos forros

Tanto talento não guarda segredo

O dono do palco, o Zumbi lá do morro

Pela 28, chinelo de dedo

Se a paz em Angola lhe pede socorro

Filho de Teresa encara sem medo

 

Seguiu escola do Pai Arraia

Reforma agrária e na festa do arraiá

Em cada verso, mais uma obra-prima

Ousar, mudar e fazer sem rima

 

Seguiu escola do Pai Arraia

Reforma agrária e na festa do arraiá

Em cada verso, mais uma obra-prima

Só você pra fazer sem rima

 

Profeta, poeta, mestre dos mestres

África em prece, o griô, a referência

O senhor da sapiência, escritor da consciência

E a cadência de andar, de viver e sambar

Tão bom cantarolar porque o mundo renasceu

Me abraçar com esse povo todo seu

Eu vou junto da família

Do Pinduca à alegria pra brindar

Modéstia à parte, o Martinho é da Vila

 

Partideiro, partideiro, ó

Nossa Vila Isabel brilha mais do que o Sol

Canta, negro rei, deixa a tristeza pra lá

Canta forte, minha Vila, a vida vai melhorar

(A vida vai melhorar)

 


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