A tristeza de não ouvir seu próprio hino | Diário do Porto


Nas esquinas de Tóquio

A tristeza de não ouvir seu próprio hino

Como na Olimpíada, escândalo de doping impede atletas russos de ouvir seu hino nos pódios dos Jogos Paralímpicos de Tóquio

28 de agosto de 2021

Astashov trabahava como entregador de delivery antes do ouro em Tóquio (reprodução TV)

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Nas esquinas de Tóquio

                                                                    Vicente Dattoli

As medalhas continuaram a vir. Muitas de bronze, é verdade, mas qual o problema? Como escrevi, na Paralímpiada a gente até acredita que o esporte brasileiro dá certo. Mas, antes de registrar outras conquistas em verde e amarelo (que não são australianas…), vou refletir um pouco sobre o que é ser campeão olímpico ou paralímpico e não poder ver a sua bandeira, ouvir o seu hino.

Esta reflexão me bateu ao ver um atleta do Comitê Paralímpico Russo, no lugar mais alto do pódio, olhando para o vazio enquanto o sistema de som do Estádio Olímpico Nacional de Tóquio executava o concerto para piano e orquestra número 1 de Tchaikovsky. É… Uma peça de música clássica no lugar do hino russo.

Outro que venceu, mas não ouviu o hino, foi o medalhista de ouro no ciclismo 3000 mil metros modalidade perseguição individual, Mikhail Astashov. Ele ficou famoso por divulgar vídeos nas redes sociais trabalhando como entregador de delivery. O dinheiro que ganhou pedalando na atividade foi usado no seu treinamento para os Jogos.

Tudo porque a Rússia, por ter feito do uso de doping quase que uma política de estado, teve proibida sua participação como País. Como vários atletas russos estavam (são) “limpos”, ou seja, não usam de táticas irregulares, abriu-se a exceção (já na Olimpíada) para que competissem como “Comitê Olímpico Russo” ou, neste caso, “Comitê Paralímpico Russo”.


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Nos tempos de Haroldo de Andrade

Ao ouvir a peça de Tchaikovsky, voltei no tempo. Conhecia aquela melodia. Prestando mais atenção, e deixando a memória funcionar, lembrei: era o tema de abertura do programa de rádio de Haroldo de Andrade, nos anos 70 e 80. Líder de audiência no Rio de Janeiro.

A música acompanhava o “Bom Dia”, que encerrava com uma lição, um conselho, uma reflexão. Exatamente como são as provas paralímpicas. Elas nos ensinam, nos aconselham, nos levam a refletir. Os atletas russos campeões não podem olhar sua bandeira.

Os russos que conquistam a medalha de ouro não podem ouvir o seu hino. Ouvem Tchaikovsky. A melodia é linda, pungente. Só que não é o hino. Os olhos, normalmente marejados, entremeiam o sorriso da conquista com a tristeza de não ser identificado com o seu país, com a sua terra, com a sua gente. Uma pena.

Voltando a falar de medalhas…Quando estava encerrando este texto, o Brasil assegurou mais um bronze. Foi no dardo. O paraibano Cícero Nobre, com 48,93m, foi superado apenas pelo iraniano Amanolah Papi e pelo atleta do Azerbeijão Hamed Heidari – que bateu o recorde mundial e teve o direito de ouvir o hino de seu país no pódio. Como sempre deveria acontecer.

 


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