A relevância do Porto do Rio e sua relação porto-cidade | Diário do Porto

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A relevância do Porto do Rio e sua relação porto-cidade

Neste artigo, Eduardo Miguez defende que é preciso reconhecer a importância econômica do Porto do Rio e que suas atividades estão em sintonia com a cidade

7 de junho de 2021


Porto do Rio emprega cerca de 5 mil pessoas diretamente e 12,5 mil indiretos (foto: CDRJ / divulgação)


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Eduardo Miguez *

 

O Porto do Rio de Janeiro é um dos principais portos do país e possui grande diversificação de cargas. Possui um terminal de passageiros, que está entre os melhores do Brasil, possui um moderno terminal de trigo, que abastece todo o Estado do Rio de Janeiro e parte de Minas Gerais, possui operação de gesso, cloreto, de exportação de ferro gusa, produtos siderúrgicos, importação de concentrado de zinco dentre outras. Além disso, possui um terminal especializado para movimentação de veículos e dois modernos terminais de contêiner. Os terminais arrendados investiram recentemente mais de 1 bilhão de reais em ampliação e modernização de equipamentos.

O Porto do Rio possui ainda a principal base de apoio offshore da Petrobras para atender às demandas dos campos do pré-sal da bacia de Santos. Para demonstrar a importância dessa base, foi ela que viabilizou logisticamente a exploração do primeiro campo do pré-sal no país. Recentemente a Petrobras divulgou que planeja colocar em operação até 2025, dez unidades de exploração e produção para a bacia de Santos. Todas elas serão atendidas pela base de apoio situada no Porto do Rio de Janeiro, tornando a logística de apoio à exploração e a própria produção mais eficiente, contribuindo com a economia, geração de impostos e emprego (além de royalties) para todo o país. O Porto do Rio possui uma localização estratégica para essa indústria.

O Porto do Rio de Janeiro também se mostra fundamental para o estado e município através da geração de impostos e empregos. Segundo dados do caderno Porto do Rio Século XXI, o Porto do Rio de Janeiro gera 5 mil empregos diretos e 12,5 mil empregos indiretos. Em 2019, gerou R$ 1,56 bilhão de ICMS aos cofres do estado, sem contar o ISS ao município.

O porto possui rotas comerciais com todas as regiões do planeta, contribuindo com toda a cadeia de comércio exterior do país, principalmente dos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Entre as cargas mais movimentadas estão produtos siderúrgicos, ferro gusa, trigo, veículos, café, peças e equipamentos e produtos químicos, além claro, das cargas de apoio offshore.

Recentemente o Porto do Rio recebeu investimentos com a construção da Avenida Portuária, via que liga a Avenida Brasil diretamente ao Porto, reduzindo o conflito com o trânsito urbano na chegada ao Centro do Rio, contribuindo positivamente em sua relação porto-cidade.

Porto do Rio e o turismo

Em função do projeto Porto Maravilha, muito se fala na questão turística para o Porto do Rio de Janeiro. Entretanto, ao contrário de alguns outros portos no Brasil e no mundo (como Porto Madero na Argentina, por exemplo), o Porto do Rio possui uma grande e pujante operação portuária.

O Porto Maravilha foi um projeto da prefeitura que deu outra cara à região portuária (externo ao porto). A região ganhou importantes equipamentos e se tornou a nova região turística da cidade. O Museu do Amanhã, Museu de Arte do Rio, roda gigante e AquaRio, são alguns exemplos de equipamentos turísticos implantados. Entretanto, o porto, ao contrário do que muitos pensam, contribui com essa nova vocação da região. O porto possui um terminal de passageiros por onde diversos turistas chegam à cidade. Em breve, será inaugurado também o Mercado do Porto, transformando a região em um polo gastronômico importante. Recentemente, com o patrocínio das empresas que operam dentro do porto e da autoridade portuária, os muros externos de diversos armazéns foram pintados por artistas locais com grandes painéis, transformando a região em um grande museu a céu aberto. Além disso, ainda é possível a utilização de mais um ou dois armazéns para a implantação de um parque temático, centro de convenções ou outra atividade que tenha essa relação harmoniosa com a vocação turística da região.

A própria Prefeitura do Rio está buscando atrair empresas para a região, como startups de tecnologia, por exemplo. A região passará a contar com um distrito empresarial, diversos equipamentos turísticos e um porto eficiente, que gera riqueza para a cidade.

A falta do planejado adensamento populacional da região não tem relação com o porto. Diversos motivos impactaram até aqui para que o projeto não alcançasse os resultados planejados ainda. Com a atração de empresas, aumento da segurança pública, instalação de infraestrutura de comércio e a retomada econômica, a região pode atingir o resultado pretendido, convivendo de forma harmônica com o vizinho Porto do Rio de Janeiro. Inclusive, existem diversos imóveis vazios na região que podem servir para construção de praças públicas ou outras instalações de interesse público.

É perfeitamente possível a convivência das indústrias do turismo com as operações atuais do Porto do Rio de Janeiro.

É claro que o porto também precisa adequar suas operações, e são esses investimentos que devem ser perseguidos, para que não haja impacto em outras atividades, tanto dentro quanto fora do porto. Entendo que o necessário não seja enfraquecer o porto, mas sim, fortalece-lo, tornando-o mais competitivo e, nesse sentido, os investimentos previstos pela diretoria de Gestão Portuária da autoridade portuária e pelas empresas que operam no porto estão no caminho certo.

Nesse cenário, é preocupante observar diversos projetos que visam acabar com o porto ou com boa parte de sua operação, pois todos os que tive conhecimento até agora carecem de embasamento técnico e de viabilidade técnica e/ou financeira. Para que os projetos possam ser elaborados é preciso levar em conta também aspectos legais e técnicos ligados à operação portuária e tudo o que envolve essa indústria. Projetos que não levam em conta todos os aspectos tendem fracassar e a criar expectativa frustrada nos apoiadores do projeto e preocupação e fuga de carga dos usuários dos portos.

A transferência de carga para outros terminais ou portos depende de várias questões técnicas, financeiras e mercadológicas. Interesses políticos e vontades pessoais não conseguem se sobrepor à esses fatores, o que acaba acarretando no insucesso dos projetos. No final das contas, é o mercado que dita onde é mais viável realizar a operação. Ele não pode ser forçado, embora possa ser encorajado.

Em muitos casos, uma simples mudança em um terminal ou a construção de uma edificação podem impactar na viabilidade de operações de outros terminais na outra ponta do porto. Pode haver restrição de canais de acesso, assoreamento, gargalos logísticos internos e externos ao porto e diversas outras interferências.

O porto serve para ser um elo logístico fundamental para o comércio de mercadorias ligando o Rio de Janeiro ao mundo. O enfraquecimento da cadeia logística de exportação pode impactar diretamente no preço de produtos que os brasileiros consomem e na competitividade de nossas indústrias.

É preciso que a sociedade conheça melhor a importância do porto, vendo que pode haver harmonia e sinergia com os diversos segmentos que atuam no porto e na região onde está inserido.

Uma ação que pode ser feita para mitigar esse problema é a realização de um evento como “Dia do Porto”, onde imprensa e representantes da sociedade possam conhecer os números e fazer uma visita ao interior do porto para poderem entender a sua importância e o seu relacionamento Porto-Cidade.

Um porto competitivo em uma região com crescente apelo turístico podem conviver em uma relação ganha-ganha para todos. Para isso, é preciso a compreensão e o trabalho conjunto de todas as partes!

*Eduardo Miguez é especialista portuário, membro do Conselho de Logística e Transporte da Associação Comercial do Rio de Janeiro, membro do Coalizão Rio e autor do livro “Logística reversa como solução para o problema do lixo eletrônico”, publicado pela editora Qualitymark.


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