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A nova era do Porto Maravilha

Em entrevista exclusiva ao Diário do Porto, Gustavo Guerrante, presidente da Cdurp, fala sobre os desafios e se mostra otimista com futuro do Porto Maravilha

5 de setembro de 2021


Guerrante defende modelo de PPP adotado no Porto Maravilha (divulgação/Cdurp)


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Engenheiro mecânico de formação com mestrado em administração pela Coppead da UFRJ, Gustavo di Sabato Guerrante é desde janeiro o olhar público na Operação Urbana do Porto Maravilha. Carioca nascido e criado em Santa Tereza, Guerrante é o atual presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp), empresa pública municipal criada em 2009 para ser o elo entre a Prefeitura do Rio e as empresas da Parceria Público Privada que administram (ou não) o Porto. Nessa entrevista que será publicada em três partes, de hoje a terça-feira, Guerrante fala sobre os desafios e problemas na gestão da PPP, os novos rumos da região com a chegada dos grandes empreendimentos residenciais e de como diminuir o abismo social que separa o chão do Porto do alto dos morros que circundam a área onde o Rio nasceu. Hoje o tema é a PPP do Porto Maravilha.

Diário do Porto – A Operação Urbana que originou o Porto Maravilha tem conquistas inegáveis. Mas também problemas complexos e de difícil solução. Mais de uma década após o início das obras como o senhor avalia o projeto?

Gustavo di Sabato Guerrante – Eu acho que é um modelo que tem críticas e pontos a ajustar. Mas senão fosse feito dessa forma seria impossível realizar esse volume de obras no prazo em que foram feitas. Ele permitiu que em cinco anos a gente derrubasse a Perimetral, construísse um túnel com 50% a mais de faixas de rolagem, fizesse uma Orla Conde com 3,5 km de área de lazer. além de importantes obras de drenagem, pavimento, esgoto e telecomunicações. Tudo feito do zero. Se fosse nos padrões convencionais com licitação, Lei 8.666, obra pública e etc, hoje talvez a gente tivesse conseguido derrubar a Perimetral e construir a Orla Conde. Talvez…

DiPo – Mas esperava-se que hoje essa região estivesse repleta de prédios corporativos, gente circulando, novos comércios. Mas o que se tem é muito pouco em relação ao que se esperava ter. O que não funcionou?

Guerrante – Não gosto muito de olhar no retrovisor, mas a realidade é que prefeito anterior (Marcelo Crivella) não olhou com atenção para o Porto Maravilha e o VLT. Numa entrevista chegou a chamar o VLT de “trenzinho de merda” (Na verdade, o ex-prefeito chamou o Veículo Leve Sobre Trilhos de porcaria). Do ponto de vista administrativo, a gestão anterior judicializou muita coisa, por não dar solução a problemas e adiar decisões. Isso criou uma imensa dificuldade burocrática. Quando chegamos aqui precisamos entender e desfazer o novelo burocrático que estava formado para fazer a roda voltar a girar. Avançamos muito nesse processo nesses noves meses.

DiPo – E a questão comercial do Porto Maravilha? O que não funcionou?

Guerrante – No início do projeto, a gente vivia um momento de pujança econômica. Era o auge do Brasil. O Rio nem se fala, com Copa e Olimpíada. Mas quando você tem a crise econômica que se inicia em 2014, e também a política, especialmente aqui no Rio, essa questão comercial fica adormecida. É difícil nesse cenário de Crivella, impeachment de presidenta e troca de governador chegar para um empreendedor como a Tishman Speyer pensar na construção da segunda torre do AQWA ou para Autonomy Investimentos subir um residencial de alto padrão na avenida Venezuela. E por último veio a pandemia para complicar de vez. Como vai ser daqui para frente? Vai ficar como estava? Acredito que não. As empresas estão voltando a trabalhar presencialmente e temos uma novidade, que é a chegada dos empreendimentos residenciais. A rampa está voltando a empinar.


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DiPo – Sem a negociação dos Cepacs (títulos imobiliários emitidos pela Prefeitura para viabilizar a Operação Urbana do Porto) a Caixa (gestora do fundo que subsidiava a PPP) atrasou o pagamento da Concessionária Porto Novo, vencedora da licitação do Porto Maravilha. A empresa suspendeu o contrato de conservação, zeladoria e manutenção dos túneis da Região Portuária que prestava. Por conta disso, não teria sido melhor leiloar os Cepacs em lotes para que não houvesse o risco de concentração nas mãos de um comprador único como acabou ocorrendo?

Guerrante – Esse é um bom ponto. São Paulo fez isso bem. Separou por lotes e fez obras em várias regiões. Mas como fazer tudo junto num lugar só como fizemos aqui se você não tem o volume de recursos para isso? Foram mais de seis milhões de Cepacs leiloados. Se eu separo em três lotes eu começo por onde? Faço primeiro a drenagem da região ou o túnel Marcello Alencar? E quem garante que conseguiria negociá-los simultaneamente? Poderia vender um lote e ficar com dois na mão. E tínhamos um prazo inadiável para entregar tudo, que era a Olimpíada. Então, dentro das circunstâncias, foi a melhor solução que encontramos.

Praça XV
Presidente da Cdurp afirma que crise com VLT foi superada (Cleomir Tavares/Diário do Rio)

DiPo – A Orla Conde, o maior cartão postal do Porto Maravilha, tem um trecho interditado pela ação pela maré em frente ao Distrito Naval. Há buracos por todo o piso e trechos escuros ou mal iluminados. Qual o plano da Cdurp para consertar isso?

GuerranteEm relação ao trecho interditado no Distrito Naval estamos realizando obras de restauração da área danificada e contenção da maré. Até o final de novembro espero devolvê-lo aos pedestres. Estamos fazendo um levantamento de todos os problemas na Orla Conde. Minha ideia é licitar e contratar uma empresa para realizar o serviço. Em breve espero ter novidades sobre isso.

DiPo – Houve também uma crise com o VLT. Em 2019, a concessionária foi à Justiça para rescindir o contrato por dívidas da Prefeitura. Houve um acordo e o serviço continuou. Como está a relação com hoje?

Guerrante – A relação está bem melhor. O que aconteceu é que o VLT não teve outro caminho a não ser o da judicialização. O ex-prefeito parou de pagar. Mas a questão da rescisão foi pontual e praticamente superada. Hoje eles estão empolgados com essa extensão anunciada pelo Prefeito Eduardo Paes até a nova Estação. Antes da pandemia, o sistema chegou a transportar 130 mil passageiros/dia. Só com essa nova interligação no Gasômetro podemos ter mais da metade desse fluxo no sistema VLT.