A Infraero, estatal responsável pela administração do Aeroporto Santos Dumont, no coração do Rio de Janeiro, estuda uma intervenção que promete gerar fortes debates na cidade. A empresa planeja construir um edifício-garagem na atual área plana de estacionamento do terminal, localizada dentro do complexo paisagístico do Aterro do Flamengo. Além da verticalização das vagas para veículos, o projeto de expansão comercial prevê a implantação de um hotel integrado à área de desembarque de passageiros, conta nota na coluna do Ancelmo, publicada no jornal O Globo.
Impacto em um dos cartões-postais mais sensíveis do Rio
A proposta de erguer uma estrutura verticalizada no entorno do aeroporto esbarra diretamente na preservação de uma das áreas mais simbólicas e bonitas da capital fluminense. O Aterro do Flamengo não é apenas um corredor viário; trata-se de um patrimônio histórico mundialmente reconhecido, marcado pelo paisagismo de Roberto Burle Marx e pela vista deslumbrante e desimpedida para a Baía de Guanabara.
A região é utilizada diariamente por milhares de cariocas, famílias, esportistas e turistas. Por isso, a possibilidade de uma nova construção de grande porte no local tende a mobilizar rapidamente urbanistas, ambientalistas e defensores da paisagem, que temem a descaracterização do parque, o aumento da poluição e o bloqueio visual da orla.
Hotel no desembarque e o xadrez financeiro do aeroporto

Além da garagem estruturada, a construção de um hotel na área de desembarque reflete a estratégia da Infraero de diversificar e ampliar a exploração econômica do Santos Dumont. Essa busca por novas fontes de receita ganha ainda mais peso estratégico após as recentes mudanças logísticas e políticas na distribuição de voos entre o terminal central e o Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão).
Embora seja comum que aeroportos de grandes metrópoles globais explorem o setor hoteleiro e imobiliário em seus complexos para atender executivos e tripulações, a localização privilegiada do Santos Dumont exige um cuidado redobrado. Qualquer alteração estrutural ali reverbera imediatamente no caótico trânsito do Centro e nos acessos à Zona Sul do Rio.
Próximos passos e o inevitável debate urbano
A construção do edifício-garagem e do hotel ainda está em fase de planejamento. O projeto da estatal de aviação precisará passar por uma rigorosa bateria de análises técnicas, estudos de impacto de vizinhança, avaliação do fluxo de veículos e aprovações institucionais de órgãos de patrimônio antes de sair do papel.
Ainda assim, a simples intenção de verticalizar a área do atual estacionamento já coloca na mesa de discussões o delicado equilíbrio entre a eficiência e lucratividade da operação aeroportuária e a proteção inegociável das áreas públicas e do patrimônio visual do Rio de Janeiro.
