A decisão de adiar o Carnaval do Rio já está passando do ponto | Diário do Porto


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A decisão de adiar o Carnaval do Rio já está passando do ponto

Neste Artigo, Wagner Victer propõe adiar o Carnaval por 60 dias, passando para o 1º de Maio, para tentar evitar a propagação da Covid e proteger a população

9 de janeiro de 2022

Desfile da União da Ilha do Governador, no Carnaval de 2019 (foto: Riotur / Gabriel Nascimento)

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WAGNER VICTER *

Na formulação de políticas públicas em qualquer área, é necessário saber o momento certo de tomar as decisões que muitas vezes podem gerar um impacto muito maior, tanto em custo como em outros reflexos, quando não são adotadas no momento correto. Em ano eleitoral infelizmente essa situação tende a acontecer e levar a situações de maior insegurança na decisão a ser adotada pela variável política que se insere.

É muito difícil para mim, que gosto de Carnaval, falar que não há mais como mantermos o Carnaval previsto para primeiro de março, especialmente os desfiles da Sapucaí, com toda a situação que nos encontramos hoje, é cenário projetado.

Muitos me questionam tal afirmação pelo fato de não ser médico, mas afirmo, pois essa questão já deixou de ser uma questão de medicina e virou uma questão de matemática, de engenharia, de probabilidade e de meros conceitos básicos de estatística em função da nova variante Ômicron, que estabelece um processo exponencial e crescente de contaminação e que, mesmo com menor gravidade, está levando o Rio de Janeiro à um crescimento impossível de ser controlado e avaliado com a devida acurácia do que irá acontecer nos próximos 45 dias, que é quando está previsto para iniciar o Carnaval.

Para termos o Carnaval na Sapucaí, não se liga um mero botão. Há um trabalho de muitos meses, ensaios e uma série de questões que já estão nitidamente prejudicadas e que levarão as escolas do Grupo Especial, da Série de Acesso e até as escolas das Séries prata e ouro, que desfilam na Intendente Magalhães, a um enorme prejuízo e a um nível de apreensão e incerteza acima do limite.

O anúncio correto feito pelo Prefeito Eduardo Paes de suspender os blocos de rua funcionou como na tradicional anedota do comandante do Quartel que, para amenizar o impacto do anúncio da morte da mãe de um de seus soldados, falou-lhe de maneira tosca que ela “havia subido no telhado”, tentando não dar de forma abrupta a notícia.

É óbvio que não falo em cancelar o Carnaval, mas sim buscar uma modelagem onde o Carnaval seja adiado e feito de forma integrada, mantendo essa atividade importante não só culturalmente, mas também econômica, pois traz grandes benefícios para o Rio de Janeiro e para a nossa imagem. Porém essa imagem não pode ser vista de maneira negativa e tenho certeza que todos os presidentes de Escola de Samba, investidores, patrocinadores e o trade turístico, em especial o setor hoteleiro e a própria LIESA, não querem que estejamos sob um risco de termos um grande surto derivado dos desfiles.

Não dá para pensar o Carnaval no Rio só com desfiles da Sapucaí, no chamado Sambódromo, como uma bolha. Temos outros carnavais também de raiz onde acontecem desfiles de grupos como na Intendente Magalhães e que onde será praticamente impossível de fazer sistemas teóricos de controle de acesso e testagem como se estivéssemos na Suíça, o que para quem frequenta o Carnaval sabe que não vai acontecer, mesmo tendo testes, passaporte de vacina e recomendações do uso de máscara. A marca principal do Carnaval é o contato corporal, a alegria, os abraços e os beijos e não teremos os fiscais de posturas e comportamento nesses locais e em camarotes regados a álcool e com super lotação, até porque o Carnaval seria uma chatice se assim fosse controlado.

É claro que essa comunicação de adiamento é muito desagradável, porém será mais desagradável se demorar mais tempo para ser anunciada, e os impactos serão ainda maiores, até porque as Escolas de Samba já estão abaladas financeiramente por problemas dos anos anteriores da pandemia e não podem se colocar ao risco, pois não têm subvenção pública recebida, como tinham no passado, para cobrir tal risco.

Um primeiro movimento seria adiar o Carnaval por 60 dias, colocando no feriado de Primeiro de Maio, que acontece num domingo, conjugando com as comemorações do dia do trabalhador, e os dois dias seguintes (segunda e terça). Logicamente discutindo com as instituições e comércio como se poderia mitigar esse impacto de feriado, especialmente em alguns segmentos como a indústria.

Seria um “Carnaval Fora de Época” e logicamente essa prorrogação de 60 dias ainda vai requerer uma avaliação da evolução nos próximos 45 dias, pois é certo que a nova variável ainda não tem comportamento plenamente definido e não teremos ainda no curto prazo. Mas ela está atacando indiscriminadamente, voltando à estatística de que, por mais que seja menos impactante, um percentual pequeno de um valor absoluto muito maior, também gera valores proporcionais extremamente elevados e que vão afetar a vida das pessoas e, ainda sim, gerar riscos.

Tomei as 3 doses da vacina, tive Covid há cerca de um ano e uso máscara em ambiente fechados, além de tomar vitaminas e fazer atividades físicas. Mesmo assim fui contaminado recentemente pela variante Ômicron, o que demonstra claramente que, por mais que ela seja não tão impactante como as cepas anteriores, ela ataca. E não sabemos como será o “day after” dessa evolução e como irá se comportar em cada pessoa.

O mais prudente portanto é que nos próximos 10 dias, de maneira integrada, o Governo do Estado e especialmente a Prefeitura do Rio, adotem a medida de adiar o Carnaval em pelo menos 60 dias, pois até os Comitês Científicos dessas esferas de poder já estão recomendado essa suspensão, não o cancelamento, mas o adiamento para um Carnaval fora de época.
Que nosso Carnaval seja celebrado com mais pé no chão e que, aliás, com isso venhamos até reduzir a ideologia que cerca essa discussão que coincide com um ano eleitoral. Pois seria péssimo a liberação somente dos desfiles da Sapucaí dissociado do Carnaval da Cidade com blocos, passando a visão de um Carnaval de Elite para atender ao público que pode pagar por ingressos e camarotes.

Nesse caso, prudência e caldo de galinha não farão mal a ninguém. E logicamente preferimos ter um Carnaval mais solto, mais agradável, pois, da maneira como quer se colocar o desfile da Sapucaí será artificial, tipo um filme pornô com “boneca inflável” .

Quanto mais cedo tomarmos essa decisão os impactos serão menores. Os investidores podem reprogramar suas atividades, os camarotes podem reprogramar seus shows, o setor hoteleiro adequaria seus pacotes de viagens e até poderá ganhar com uma nova janela. Com isso reduzimos o risco de todo desgaste que podemos ter de imagem para o mundo, até porque sabemos que por mais que seja estabelecido por decretos e regras, infelizmente muitas pessoas não os cumprem. O réveillon de Copacabana mostrou claramente isso.

Com essa medida de adiamento conseguiremos avançar bastante com as doses de reforço e quem sabe trabalhar até para antecipar a nova campanha de vacinação de gripe para março, de forma que consigamos evoluir também nesse processo de imunização as novas cepas grupais.

Como colocar nos desfiles a Velha Guarda, a Ala das Baianas, lendas octogenárias como Martinho da Vila, além de pessoas com comorbidades, considerando que um mero teste ou até mesmo máscaras irão preservá-los?

A meu ver, isso não é mais um caso de medicina e infectologia, mas de pura lógica! Portanto, até em homenagem a diversos amigos do samba que foram levados pela Covid, faço esse apelo à reflexão.

*Wagner Victer é engenheiro, administrador, jornalista e desfila há décadas pela União da Ilha do Governador


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