A culpa e o charme nos crimes de Patricia Highsmith | Diário do Porto

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A culpa e o charme nos crimes de Patricia Highsmith

Entre lindos livros de capa dura, editora relança série do escroque Tom Ripley, que Matt Damon interpretou, para marcar 100 anos de Patrícia Highsmith

13 de maio de 2021


Cena do filme protagonizado por Matt Damon (Divulgação)


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Olga de Mello

Olga de Mello

 

Os livros de “capa dura” perderam a primazia faz tempo no mercado brasileiro. Preço, principalmente, entronizou as brochuras na preferência dos leitores, mas talvez a possibilidade de estampar imagens bonitas nas capas flexíveis, a custos inferiores, tenha determinado o domínio de sua oferta nas livrarias. Edições especiais vêm saindo com capa dura, muitos em caixas, e de autores consagrados. A coleção Clássicos Zahar adotou capa dura até nas edições de bolso, umas lindezas. A Record aproveitou os 50 anos de lançamento de Cem anos de solidão para emendar com uma caixa contendo também, em capa dura, O amor nos tempos do cólera e Crônica de uma morte anunciada (Record, R$ 159, o box).

A Nova Fronteira fez caixas com obras de Boccacio, Jane Austen, entre tantos outros, e relançou a coleção Clássicos de Ouro em capa dura, além de outros títulos célebres e outros menos populares, como A casa soturna (Nova Fronteira, R$ 79,90), de Charles Dickens.

Embora já venha investindo em muitos volumes de capa dura, incluindo os de seu clube de assinaturas, o Intrínsecos, a editora Intrínseca está comemorando os 100 anos de nascimento da norte-americana Patrícia Highsmith com o relançamento da série protagonizada por Tom Ripley, hoje mais conhecido pela interpretação de Matt Damon, que encarnou o charmoso sociopata em adaptação cinematográfica de Anthony Minguella.

Os espectadores já haviam sido apresentados ao escroque em O sol por testemunha, em 1960, interpretado por Alain Delon na versão de René Clement para O talentoso Ripley, que chegara às livrarias cinco anos antes. O sucesso do filme pode ter contribuído para a retomada, pela escritora, do amoral e carismático salafrário em Ripley Subterrâneo, publicado em 1970. Depois vieram O jogo de Ripley (1974), O garoto que seguia Ripley (1980) e Ripley debaixo d’água (1991).

Além de tramas eletrizantes, as precisas descrições de ambientes e de personagens marcados por comportamentos paradoxais tornam as histórias de Patrícia Highsmith facilmente “filmáveis”. Sua notoriedade veio em 1955, quando Alfred Hitchcock lançou Strangers in a train (no Brasil, Pacto Sinistro), a primeira novela que ela publicara, quatro anos antes, graças a uma bolsa na colônia de artistas Yaddo, em Nova York, que a recebera por indicação do romancista Truman Capote.

Outros cineastas filmaram suas histórias (Em O amigo americano, de Win Wenders, baseado em Ripley Subterrâneo, Dennis Hopper é um Ripley frio e vigarista: John Malkovich criou um Ripley amedrontador, em O jogo de Ripley, de Liliana Cavani), caracterizadas por um suspense inquietante e pela culpa que atormenta quase todos os personagens – exceto o fascinante Tom Ripley.

Várias estrelas do cinema interpretaram Tom Ripley

Patricia Highsmith viveu entre a França e a Suíça a partir de 1963, acompanhada por animais e, ocasionalmente, seus casos amorosos. Arredia, ferozmente antissemita (apoiava a causa palestina com ardor), ateia, racista e alcoólatra, falava abertamente sobre sua homossexualidade e os raros envolvimentos com homens. Ao morrer, em 1995, deixou direitos autorais e propriedades para serem divididas entre a colônia Yaddo e uma divisão da Biblioteca Nacional da Suíça.

A Intrínseca ensaiou o lançamento da Riplíada (Ripley + ilíada, para os admiradores da série) em janeiro, quando Águas profundas (Intrínseca, R$ 59), já com o mesmo desenho de capa (dura) e fitilho, saiu pelo Intrínsecos. O talentoso Ripley e Ripley subterrâneo têm preço igual, R$ 59 – nem tão acima do que o mercado cobra por brochuras com o mesmo número de páginas. Tomara que a editora se empolgue e lance os outros 16 romances de Patricia Highsmith! Os leitores de bons thrillers agradecerão. #nãoàtaxaçãodolivro