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A condição feminina

Em sua nova coluna, Olga de Mello fala de livros que retratam a dura condição feminina em uma sociedade machista que destroça sonhos e o futuro das mulheres

20 de fevereiro de 2022

Cena do filme "A Noite de Fogo", baseado no livro "Reze pelas Mulheres Roubadas", de Jennifer Clement, indicado por nossa colunista Olga de Mello (reprodução/Netflix)

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Olga de Mello

Olga de Mello

A estreia de Noite de Fogo, filme baseado em “Reze pelas Mulheres Roubadas” (ed. Rocco, R$ 26,90), de Jennifer Clement, desperta a curiosidade sobre esse romance cuja narradora, Ladydi, tem os cabelos cortados rente à nuca, veste-se como menino e esconde-se em um buraco no quintal cada vez que sicários passam por seu povoado, no interior do México, para raptar adolescentes a fim de torná-las amantes de chefões do tráfico de drogas. A adaptação cinematográfica apresenta apenas um recorte do enredo original, dando um ritmo lentíssimo ao que, em livro, transparecia o dinamismo natural das meninas, mesmo diante da pasmaceira da rotina local. Ao modificar o destino de alguns personagens, cuja essência feminina se perde até ao rebatizar a protagonista com um nome mais banal.

É exatamente o nome da menina a primeira tentativa para que ela escape de um cotidiano miserável e violentíssimo. Nascida nos Estados Unidos, mas criada no México, Jennifer Clemente colheu depoimentos de mulheres sobre a violência a que são submetidas no país até escrever uma sátira cruel sobre a omissão de sucessivos governantes em oferecer educação, segurança, saúde e emprego para as camadas menos favorecidas da população. Somada à incapacidade administrativa e à conivência com o narcotráfico, a alegoria de Clement mostra a realidade de diversos países latino-americanos, onde a sobrevivência feminina depende da boa vontade de bandidos infiltrados em diferentes setores da sociedade.

Se o filme prima pelo maniqueísmo, o romance trata com extrema naturalidade as poucas oportunidades que os invisíveis têm para viver com um mínimo de conforto. Dignidade e honestidade são conceitos maleáveis para quem não sabe se vai comer a próxima refeição. Inspirada por sua própria vida de integrante da aristocracia Venezuela no início do século XX, Teresa de la Parra, uma escritora pouco conhecida no Brasil, teve bastante reconhecimento da crítica em sua época.

Nasceu em Paris, filha de um diplomata, mas foi criada na fazenda da família, próxima a Caracas, e que serve de cenário para “Memórias de Mama Blanca” (ed. Oficina Raquel, R$ 44,30), que traz as recordações de uma aristocrata empobrecida na velhice, cuja própria família despreza sua educação refinada, bem menos consistente do que os estudos das noras em instituições europeias. É nas lembranças de Blanca que Parra retrata a Venezuela de seu tempo, o contraste entre a liberdade no campo e a agressividade urbana, as profundas diferenças de classe, o racismo e o machismo entre tantos preconceitos que compõem uma sociedade anti-feminina que renova suas tradições segregadoras.

Não faltam preconceitos, brutalidade e dores em “A Casa da Alegria(ed. Record, R$ 37,90), um dos mais conhecidos romances da americana Edith Wharton, cuja personagem principal, Lily Bart, vive o tema mais explorado pela inglesa Jane Austen: mulheres da classe alta sem herança em busca de maridos ricos que possam sustentá-las. Wharton, ela própria uma mulher muito rica, provavelmente observou a trajetória de muitas jovens que, como Lily Bart, só percebiam no casamento a única escapatória da miséria ao descobrirem que não teriam renda alguma a herdar de parentes ricos. Embora muitas mulheres já estivessem entrando no mercado de trabalho na virada do século XX, tal possibilidade estava fora de cogitação para alguns grupos sociais, e o drama de Lily Bart está sempre na iminência de se transformar em tragédia.


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