A comunicação de interesse público falha na pandemia | Diário do Porto

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A comunicação de interesse público falha na pandemia

As jornalistas Célia Abend e Isabela Abdala criticam a falta de informação pública clara e abrangente sobre a pandemia, o que prejudica a população

28 de maio de 2021


O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ao lado do Zé Gotinha, símbolo das campanhas de vacinação (Foto: Agência Brasil / Marcello Casal)


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Comunicação para interesse publico - pandemia

Célia Abend e Isabela Abdala

Está lá no Artigo 5 da nossa Constituição: todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, e todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei. Em tempos de pandemia, o direito constitucional à informação deveria ser o parâmetro maior a ser utilizado pelas administrações de estados, municípios e do Governo Federal para prestar contas sobre o combate à Covid-19 e dar orientações claras e precisas sobre os serviços disponíveis para a população, como vacinação e vagas nos hospitais.

Infelizmente, não é o que estamos vendo no Brasil. Nem é preciso entrar em detalhes com relação ao Governo Federal, cujo Ministério da Saúde trabalha em função de um presidente que desdenha da pandemia e despreza suas vítimas. Com orientações erráticas, informações desencontradas e tentativa de manipulação de dados, o Ministério abriu mão de ser o grande condutor do país para reduzir os danos e evitar mortes. A ponto de os grandes veículos de imprensa terem que formar um consórcio para montar o mapa da pandemia no território nacional com dados confiáveis e regulares.

Mas o Supremo Tribunal Federal confirmou que Estados e Municípios têm competência para atuar no combate à Covid-19, inclusive comprando vacinas e medicamentos diretamente. Se é assim, por que a comunicação sobre a pandemia é tão falha? Por qual motivo prefeituras e governos estaduais não lançaram suas próprias campanhas de esclarecimento à população, explicando as vantagens do isolamento, do uso de máscaras, a eficácia das vacinas e o real efeito dos medicamentos que a todo momento aparecem como verdadeiros milagres?

É óbvio que o fenômeno das fake news tem sido o grande vilão da comunicação oficial sobre os efeitos da pandemia. Notícias falsas sobre remédios que curam, tratamento precoce e até absurdos calendários inverídicos de vacinação vêm circulando nas redes sociais e confundindo as pessoas, especialmente aquelas que não têm acesso regular a informações oficiais e à internet.

Com orientações erráticas, informações desencontradas e tentativa de manipulação de dados, o Ministério abriu mão de ser o grande condutor do país para reduzir os danos e evitar mortes.

O jornalismo tem feito seu papel, informando devidamente, criticando posturas e denunciando más práticas na pandemia. Mas isso não exime os governantes da obrigação constitucional de informar devidamente, por diversos meios, para que os esclarecimentos cheguem a todos. Achar que tudo se resolve postando em redes sociais é uma atitude reducionista para tapar o sol com a peneira.

Um grande problema ocorre quando a comunicação pública é partidarizada ou personalizada. Quando o governante considera que as verbas do orçamento destinadas à comunicação e à publicidade servem para enaltecer sua atuação. De fato, é um dever do gestor divulgar seus projetos e ações com transparência para que todos saibam o que está fazendo com o dinheiro público, desde que respeite o princípio da impessoalidade, isto é, não use estes recursos para fazer promoção pessoal.


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Mas no Brasil são cada vez mais raros os casos de uso de verbas publicitárias para ações de saúde, educação, trânsito e cidadania, por exemplo. A falta de grandes campanhas de conscientização está levando os brasileiros a deixarem de lado a vacinação programada das crianças, trazendo de volta doenças que já estavam erradicadas, como o sarampo. Muitos já estão sentindo saudades do Zé Gotinha.

O jornalismo tem feito seu papel, informando devidamente, criticando posturas e denunciando más práticas na pandemia. Mas isso não exime os governantes da obrigação constitucional de informar devidamente, por diversos meios, para que os esclarecimentos cheguem a todos.

Mesmo diante da grande tragédia que se tornou a pandemia da Covid-19 no Brasil, não vemos campanhas governamentais de massa para esclarecer sobre as notícias falsas e orientar as pessoas. Conseguir dados em sites públicos muitas vezes é tão difícil que até os mais experientes custam a achar. Informações detalhadas sobre vacinação, grupos prioritários e documentos exigidos têm sido oferecidas de forma esparsa pelos órgãos públicos. É preciso fazer uma busca atenta para saber, por exemplo, quais as profissões e comorbidades que foram incluídas nos grupos prioritários de vacinação. E para aumentar a confusão, as orientações mudam de acordo com o município.

O jornalismo está fazendo a sua parte. Mas não se pode eximir a responsabilidade que União, Estados e Municípios têm no uso da comunicação para enfrentar a pandemia. Os orçamentos de comunicação das três esferas de poder sempre foram vultuosos, e é inadmissível que justamente agora, quando a comunicação pode salvar vidas, se queira economizar. Com vontade de comunicar de verdade, é possível promover alianças com a sociedade organizada e fazer uma comunicação séria e eficaz sobre a pandemia, usando a criatividade e a tecnologia a favor de uma grande causa.

*Isabela Abdala e Célia Abend são jornalistas especializadas em comunicação de interesse público e atuam na Avenida Comunicação