A Cedae e o medo que sai das torneiras do Rio | Diário do Porto


Sustentabilidade

A Cedae e o medo que sai das torneiras do Rio

Sem respostas para a população, direção da Cedae pouco faz para devolver a tranquilidade aos cidadãos que pagam pelo fornecimento de água no Rio de Janeiro

17 de janeiro de 2020

Falta de ação da Cedae para resolver crise em fornecimento de água prolonga incerteza do carioca no consumo de água (Tomaz Silva/Agência Brasil)

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Bárbara Lopes *

Há dias a água fornecida pela Cedae (Companhia Estadual de Água e Esgoto) não está respeitando suas três propriedades: inodora, insípida e incolor. Água turva, com sabor e cheiro forte de terra, às vezes de esgoto, é a que sai em boa parte das torneiras cariocas. Diante da falta de transparência da Companhia sobre os motivos da adulteração da água, a Reitoria da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) solicitou a um grupo de docentes da instituição a elaboração uma nota técnica sobre os problemas da qualidade da água no Rio de Janeiro.

Os docentes que realizaram a nota atuam com linhas de pesquisa em ecologia aquática, recursos hídricos, saneamento e saúde pública. O estudo atesta 3 principais recomendações para as companhias de saneamento: modificar o sistema de governança de recursos hídricos, divulgar as informações e promover ações de conscientização social da amplitude da crise, investir em medidas de longo prazo.

Até o momento estão sendo afetados 71 bairros da cidade do Rio, mas outras 6 cidades têm seu abastecimento afetado: Queimados, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Belford Roxo, São João de Meriti e Nilópolis. O fornecimento de água dessas cidades, abastecidas pelo Rio Guandu, depende da transposição de água do Rio Paraíba do Sul e de sua qualidade sanitária. O estudo alerta para a grande quantidade de esgotos lançados em rios afluentes do rio Guandu.

“Esgotos sanitários em estado bruto, ou seja, desprovidos de qualquer tratamento, são drenados pelos rios dos Poços, Queimados e Ipiranga, todos afluentes do rio Guandu, a menos de 50 metros da barragem principal e da estrutura de captação de água do sistema produtor”, diz o estudo.

Pautando-se pela responsabilidade acadêmica e social que a UFRJ tem com a população, os docentes ressaltam alguns pontos dos estudos realizados e orientam:

  • A evidente degradação ambiental nos mananciais utilizados para abastecimento público dificulta seu posterior tratamento, colocando em risco a saúde pública.
  • A responsável pela qualidade da água tratada é a companhia de saneamento. A vigilância desta qualidade é de responsabilidade do setor da Saúde (Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais da Saúde), que não pode se omitir sobre essa questão.
  • O consumidor não tem a responsabilidade de monitorar a qualidade da água que recebe e não deve ser orientado a consumir água de outra fonte por ser socialmente injusto, já que impõe gastos adicionais, e é dever da rede de distribuição o atendimento adequado.
  • A falta de transparência sobre a real situação da qualidade da água causa um cenário de insegurança, e as informações liberadas devem ser claras e precisas.
  • Com probabilidade de futura recorrência, os investimentos necessários para essa recuperação não podem ser adiados e devem ser considerados prioritários e estratégicos.

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A resposta da Cedae

Só em 15 de janeiro, 13 dias depois das primeiras notificações de problemas com a qualidade da água fornecida pela Cedae, o presidente da Cedae, Hélio Cabral, decidiu vir a público falar sobre a má qualidade da água fornecida na região metropolitana do Rio de Janeiro. Entretanto, não estabeleceu qualquer prazo para o restabelecimento de água potável. O presidente informou que carvão ativado será pulverizado na água tratada, o que garantirá a retirada da geosmina da água. Isso, segundo ele, garantiria o retorno da qualidade da água.

A geosmina é produzida por uma cianobactéria e seria a substância causadora pelo “cheiro de terra”. Entretanto, a explicação de que a água esteja chegando suja à população por causa das cianobactérias não é verdadeira, já que elas não alteram a cor da água e são um sintoma do desequilíbrio do meio ambiente. Em 14 de janeiro, a Cedae divulgou alguns parâmetros sobre a água tratada, esses laudos não faziam qualquer referência sobre a presença de geosmina na água. Conforme a nota realizada pela UFRJ a água turva, com odor e sabor alterado, tem origem nos esgotos despejados nos afluentes do rio Guandu.

O presidente da Cedae

Não é de agora que a Cedae é utilizada como moeda de troca e de influência política. Cargos centrais da companhia como direção e gerência são indicações políticas. Figura envolvida em escândalos, o atual diretor da companhia, Hélio Cabral, foi diretor financeiro da Cedae nos governos de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão. Ex-membro do conselho diretor da mineradora Samarco, Hélio Cabral foi indiciado, mas inocentado, por homicídio com dolo eventual por suspeitas de conhecimento prévio da possibilidade de rompimento da barragem em Mariana, MG.

A revista VEJA divulgou em matéria publicada no último dia 9 que a Cedae pagará 311.900 reais pelo aluguel de um carro blindado que será utilizado por Hélio Cabral durante 24 meses. A justificativa para o gasto extra seria evitar possíveis retaliações de funcionários demitidos. O presidente da Companhia demitiu 54 funcionários em 2019. Há indícios de que o motivo das demissões tenha sido político, já que todos esses funcionários eram indicação de outro político. Entretanto, em coletiva de imprensa, Hélio Cabral afirmou que as demissões seriam por redução de despesas, já que muitos salários eram acima de R$ 35 mil, alcançando até R$ 80 mil. Segundo ele, as demissões economizarão mais de R$ 100 milhões por ano.

O governo do Rio

O governador do estado, Wilson Witzel, estava em viagem para a Disney desde 7 de janeiro, início da crise hídrica. Retornando em 14 de janeiro, o governador não antecipou seu retorno pelo problema com a Cedae. Witzel manteve o período programado de sua viagem para o parque em Orlando, local onde esteve em setembro e espalhou o boato de que estaria negociando com a Disney a construção de um parque no Rio de Janeiro.

No dia de seu retorno ao Rio, o governador postou em sua conta do Twitter sobre a crise no estado:

Twitter de Wilson Witzel
Em retorno de nova viagem para a Disney, governador Wilson Witzel se pronuncia sobre a crise da Cedae pelo Twitter

O governador não informou, entretanto, quais medidas estará exigindo da Companhia. A falta de respostas concretas à população e a falta de ação apresentada pela Cedae mantêm a população com medo da água que sai de suas torneiras, impondo um gasto extra às famílias para comprar água mineral mais cara nos mercados.

Aguardando resolução

Na manhã desta quinta-feira, agentes da Polícia Civil estiveram na Estação de Tratamento de Água do Guandu, em Nova Iguaçu, para coletar amostras da água e documentos para investigar se houve responsabilidade penal de funcionários da Cedae, ou de terceiros.

*Bárbara Lopes é estagiária.


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