Mostra da ONU lembra 70 anos da Declaração dos Direitos Humanos

A Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil, abre nesta quarta-feira (8), no Centro Cultural dos Correios, a exposição 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, com obras de Otávio Roth. A mostra apresenta 30 xilogravuras que traduzem os ideais de paz e igualdade defendidos nos artigos do documento. A entrada é franca

Primeira etapa de montagem de instalação participativa "A Árvore", na Escola da ONU, em Nova Iorque, em 1990. (Foto: Acerto Otávio Roth)
Otávio Roth, na primeira etapa de montagem de instalação participativa “A Árvore” na Escola da ONU, em Nova Iorque, em 1990 (Foto: Divulgação)

Os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos estão sendo marcados no Rio de Janeiro com uma mostra com 30 xilogravuras do Acervo Otávio Roth que traduzem os ideais de paz e igualdade defendidos nos artigos do documento. A exposição, com entrada franca,  foi aberta dia 8 pela Organização das Nações Unidas no Brasil no Centro Cultural dos Correios. 

É a primeira vez em mais de 30 anos que as xilogravuras — expostas permanentemente nas sedes da ONU em Nova Iorque, Viena e Genebra — têm exibição no país. Morto em 1993, aos 41 anos, Otávio Roth foi gravador, designer gráfico, ilustrador e professor. Ele é reconhecido mundialmente por seu trabalho com papel artesanal e eventos de arte participativa.

As xilogravuras demoraram dois anos para ficar prontas, sendo exibidas pela primeira vez em 1978. As obras foram, ao longo do tempo, gravadas em várias línguas: norueguês, inglês, francês, japonês, espanhol, dinamarquês e português.

Filha fala sobre o legado das obras de Otácio Roth

Em entrevista ao Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (Unic Rio), a filha e curadora do artista, Isabel Roth, falou sobre o legado das obras de Otávio e sua contribuição para a divulgação da Declaração, que completa 70 anos em 2018, e do trabalho das Nações Unidas globalmente.

“O Otávio foi o primeiro artista vivo a expor na ONU, porque foi o primeiro artista a ilustrar o conteúdo da Declaração Universal dos Direitos Humanos”, disse Isabel, citando o documento histórico adotado pelos países em 10 de dezembro de 1948, alguns anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

Segundo Isabel, Otávio Roth acreditava que o conteúdo da Declaração era muito importante para ficar restrito aos círculos de profissionais das Relações Internacionais e do Direito, sendo necessária sua disseminação de forma mais didática para as populações do mundo todo. Ele manifestou essa opinião em entrevistas concedidas na época em que lançou o trabalho.

Assista aqui ao vídeo do Unic Rio sobre a trajetória de Otávio Roth, com a participação de Isabel Roth, amigos do artista e especialistas em direitos humanos:

 

De ‘papelzinho mixuruca’ para uma xilogravura com estilo

“Em várias ocasiões, tive a oportunidade de ter em mãos o texto convencional da Declaração, que é um papelzinho mixuruca, ilegível. Percebi que, daquela forma, o texto jamais seria divulgado, daí a ideia de transformá-lo num trabalho gráfico de maior impacto”, disse Otávio Roth em entrevista à ‘Folha de S.Paulo’ em 1981, ano da inauguração da exposição em Nova Iorque.

Para Isabel, um dos eixos que movem as obras de Otávio é o entendimento de que a informação precisa ser compartilhada, princípio que, segundo ela, estava presente tanto em seu trabalho artístico como em suas atividades de pesquisador, curador e professor.

“Ele tinha uma paixão por estudar e pesquisar uma série de temas, e nunca foi uma pessoa que quisesse guardar esse conhecimento para si, sempre quis canalizar e democratizar esse acesso”, declarou Isabel.

Artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (Foto: Acervo Otávio Roth)
Artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos

Saiba mais sobre a trajetória de Otávio Roth

Em 1971, Otávio Roth viajou para Israel, onde iniciou seu interesse pela fotografia. No ano seguinte, em São Paulo, entrou no curso de Publicidade e, em 1974, foi estudar desenho gráfico em Londres. Na capital britânica, por influência do artista Paul Pietch, começou a se interessar pela gravura, principalmente a xilogravura, e por temas sociais e políticos.

Atuou como designer, ilustrador e gravador em Oslo, no Noruega, em 1977. Voltou para o país pouco depois e, ao longo dos anos 1980, recebeu vários prêmios de literatura infanto-juvenil, como ilustrador e escritor, e foi parceiro em diversas publicações da escritora Ruth Rocha. Na mesma década, inaugurou a Handmade, primeira fábrica de papel artesanal do país.

Para Isabel, as obras de Otávio valorizam o sentido de coletividade, enquanto ao mesmo tempo comunicam temas duros de maneira leve. “Era um artista muito brasileiro nesse sentido, que comunica alegremente, com cores. Não precisa obrigatoriamente falar de temas pesados de maneira traumática”, declarou. “Nesse sentido, a obra dele comunica muito para adultos, mas também para crianças”.

Exposição foi inaugurada em 1981

A ideia de ilustrar cada um dos artigos da Declaração partiu do próprio artista, que produziu as obras na Noruega. Em 1980, ele a expôs na galeria nova-iorquina Automation House, onde foi vista por um assessor do então secretário-geral da ONU, Kurt Waldheim.

O assessor ficou impressionado com o trabalho e convidou o artista brasileiro a expor a série de xilogravuras na sede da Organização, em Nova Iorque. Em 1981, a exposição foi inaugurada para lembrar os 33 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A última vez que a série de xilogravuras foi exposta no Brasil foi em 1981.

“A grande contribuição que o Otávio trouxe para as Nações Unidas com a série da Declaração foi a de apresentar uma versão que fosse leve, agradável, fácil de comunicar e que dialoga com todos”, disse.

“Essas ilustrações são singelas, mas não devemos confundir essa simplicidade com superficialidade no tratamento do conceito”, disse Isabel. “O resultado final é muito simples, mas o que está por trás é um processo complexo de simplificação, sem que se percam os valores e o significado real daquela mensagem”, completou.

Ditadura militar no Brasil não o incomodava

Segundo Isabel, Otávio não teve problemas com autoridades brasileiras durante a ditadura militar, apesar de sua defesa dos direitos humanos em meio a um regime violador desses direitos. “Toda a obra dele carrega valores e símbolos compatíveis com uma visão democrática, mas me parece que isso era muito sutil para ser percebido ou questionado pelas autoridades (da época)”, declarou.

Outros trabalhos de Otávio Roth com as Nações Unidas envolveram a elaboração de um selo comemorativo, em 1982, e uma atividade com crianças da Escola da ONU, em Nova Iorque, em 1990. Nessa ocasião, surgiu a ideia de uma nova instalação participativa sob o título “Á Árvore – Instalação Itinerante”, na qual crianças do mundo todo fizeram intervenções livres sobre folhas autoadesivas, coladas pelo artista em troncos desenhados em nanquim sobre acetato.

O objetivo era que o painel tivesse a dimensão da fachada do prédio-sede da ONU, mas o projeto ficou inacabado em virtude da morte prematura do artista. Mesmo assim, a instalação recolheu mais de 60 mil “folhinhas”.

“Esse entendimento de que a individualidade deve ser preservada e tem seu valor, mas que a contribuição de fato está no coletivo, é muito forte e comunica muito sobre o Otávio. É uma obra que sintetiza a visão que o Otávio tinha para a arte”, explicou.

O poder da arte como fator de transformação social

Isabel afirma que decidiu se tornar curadora das obras do pai porque estas permanecem relevantes, décadas depois. “Meu pai faleceu quando eu tinha 3 anos, então, tenho poucas lembranças dele. (…) Mas a obra dele sempre esteve muito presente na minha casa. A lembrança dele sempre esteve presente na minha vida”.

“Me fascina a consistência dos valores que ele carrega nas obras. Como filha, eu sei que na vida pessoal ele carregava os mesmos valores. Me fascina ele ser uma pessoa tão coesa”, disse, lembrando que o pai acreditava no poder da arte como fator de transformação social.

“Esse é o lugar da arte, e os esforços que os profissionais da área devem ter, de pensar e propor os eventos culturais, os processos como oportunidade para as pessoas se sensibilizarem e se motivarem a dar o melhor delas”, concluiu.

A exposição ficará em cartaz até 9 de setembro.

Serviço:

Abertura: 8 de agosto – 19h.
Período: 8/8 a 9/9
Visitação: terça a domingo, das 12h às 19h
Classificação: Livre
Endereço: Centro Cultural Correios – Rua Visconde de Itaboraí 20 – Centro, Rio de Janeiro

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